segunda-feira, 7 de março de 2016

08 de Março - que tal pensar um pouco?

Faz algumas semanas que não escrevo aqui no Blog. As atividades regulares não tem permitido produzir algo que é fruto do ócio. Mas não podia deixar de escrever sobre o dia 08 de março. Já escrevi algo alguns anos atrás. Está aí nos arquivos do Blog. Ali fiz um histórico, apontei lutas, deixei muito claro de que lado milito nesta discussão.

Hoje quero pensar não diferente daquele post, mas numa outra linha de raciocínio. Quando se estabelece um dia de alguma coisa, é como dia de luta; um dia para lembrar a necessidade que ainda se tem de pensar de forma reflexiva sobre tal assunto. Já afirmei isso outras vezes. Por isso o dia 08 de março não é dia de flores, nem de jantares, não é o dia do romantismo: É dia de reflexão!

Há dez anos se instituía a Lei Maria da Penha - LMP (agosto de 2016), fruto de luta e sofrimento de muitas mulheres. Foi preciso que o Brasil fosse condenado numa corte internacional para que uma lei fosse promulgada. A vitória de uma Lei como esta deve sim ser celebrado. A vitória de uma Lei que coíbe ações de violência contra a mulher.
(veja aqui: http://www12.senado.gov.br/jornal/edicoes/especiais/2013/07/04/brasil-so-criou-lei-maria-da-penha-apos-sofrer-constrangimento-internacional). 

O dia 08 de março é para que nós opressores - e aqui me coloco enquanto homem de uma sociedade patriarcal e opressora, mesmo que minhas ações individuais sejam opostas a opressão masculina – venhamos perceber que ainda somos violentos em nossa relação com o outro sexo; e que as mulheres são minoria, pois sua voz não é ouvida nem ecoa como a dos homens.

Infelizmente há casos de violência física ainda presente. Hoje já combatida pela LMP. Há também a violência verbal (palavrões, xingamentos, cantadas); há uma violência simbólica, onde a hegemonia masculina impõe uma cultura de dominação sobre a mulher. É a ação violenta praticada através de proibições de certo tipo de roupas, a proibição para ir a certos lugares, proibição de trabalhos a realizar, o controle financeiro, o controle do tempo, o controle sexual. Violência travestida de “cuidado”. Para estas violências penso que a LMP não se aplica. É uma pena!

Este dia é para que nós (lado opressor da história) reflitamos práticas, questionemos comportamentos, conscientizemos que é necessário mudança. É o dia para nos somarmos as milhões de vozes que não são ouvidas, pois seu som está sufocado pelo opressor.

Me lembro de Jesus. Ele que deu voz ao oprimido e colocou a mulher no lugar que lhe é devido: ao seu lado, no Reino de Deus. E a ela deu a voz que nós homens não damos. No episódio conhecido da Mulher Samaritana (João 4), ele se revela como o Messias. Não foi a homens, muito menos fariseus. Mas uma mulher e samaritana. É ela que vai anunciar que conheceu quem veio redimir o povo. Para variar não deram “ouvidos” aquela mulher. Mas foi dela que saiu a mensagem, sua voz ganhou o mundo.

Da mesma forma, na ressurreição, o Senhor aparece a mulheres. São elas as primeiras a ver o Cristo Ressurreto. Elas anunciam. Mais uma vez não acreditam. É preciso o testemunho de homens. Mas o relato delas chegou até nós.

O Senhor Jesus mostrou que não há diferença entre homens e mulheres. São todos alvos de sua graça, de seu amor e perdão. E todos chamados a missão de anunciar seu propósito para a humanidade.

Quando chamo à reflexão, estou chamando inclusive a ver como Jesus agiu. Refletir sua prática. E nesta prática não há espaço para violência simbólica, muito menos física ou verbal. Jesus não violentou, nem reproduziu a opressão masculina. Ele se coloca no lugar do oprimido. Isso é cristianismo.

Dia Internacional da Mulher é para dar esta voz. Posso até dar uma flor, não como ação romântica, mas como um símbolo de vida, de beleza da vida; de uma vida que merece ser vivida dignamente; sem violência, sem medo, sem opressão.

Ainda precisamos deste dia. Ainda precisamos lembrar destas coisas. Como Jesus, fico com os sem voz, com os oprimidos, com aquelas que sofrem diariamente violências das mais variadas formas. Delas são o Reino. Elas precisam ser ouvidas, não como reprodutoras de um discurso opressor, mas como produtoras de práticas de liberdade.

Acabou meu tempo de ócio.

Abraços


Zé Rominho

2 comentários:

Deyja disse...

Parabéns, texto maravilhoso, que possamos fazer deste dia e dos outros, como foi muito bem colocado, dia de luta e reconhecimento do nosso valor

Márcio Silveira disse...

Parabéns pelo texto! E parabéns aos homens e mulheres que lutam em favor desta mesma filosofia.